09 de fevereiro de 2010 - terça-feira

ESTRELAS, CAVALEIRO e LUA
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Dormirei para avistar-te
correndo a vida de pedra
como a água que vem da mata
clara e certa.
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Dormirei para escutar-te
cantar sobre a noite negra
tua voz iluminada,
áureo cometa.
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Dormirei sobre saudades
vendo ser lágrima e estrela
o que não tem mais resposta,
vida ou terra.
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Dormirei sobre estes sonhos,
enquanto a manhã não chega.
Enquanto não sonho o dia:
noite secreta.
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Cecília Meireles

08 de fevereiro de 2010 - segunda-feira

CAIXÃO, CRIANÇA e CAMINHOS
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está vendo aí, meu povo?
nem a galinha nem o ovo.
- começar tudo de novo...
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Marco Bastos

07 de fevereiro de 2010 - domingo

TORRE, CAMINHOS e ESTRELAS
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A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
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Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
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Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
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Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vazo vazio?
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Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
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Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
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Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
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Fernando Pessoa

06 de fevereiro de 2010 - sábado

CHICOTE, CAMINHOS, LÍRIOS e CORAÇÃO
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Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz
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Gilberto Gil e João Donato
Na voz de João Bosco

05 de fevereiro de 2010 - sexta-feira

CARTA, LUA, URSO e CORAÇÃO
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Se eu te dissesse o meu amor...
(Olha o mar como é vasto! Ouve o mar como geme!)
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Se eu te dissesse o meu amor!
(É meu braço que treme ou teu braço que treme?)
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Se eu te dissesse o meu amor...
(Olha como o céu esplende! Olha como o sol aquece!)
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Se eu te dissesse o meu amor...
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Mas teu corpo estremece...
A minha alma estremece
como se eu te dissesse
o meu amor...
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Menotti del Picchia

04 de fevereiro de 2010 - quinta-feira

COBRA, CORAÇÃO, ESTRELAS e SOL
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Aqui ficam as coisas.
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Amar é a mais alta constelação.
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Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.
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As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.
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Os corpos circulando
na varanda dos braços.
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É a mais alta constelação.
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Carlos Nejar

03 de fevereiro de 2010 - quarta-feira

ESTRELAS e CRIANÇA
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Eles não sabem nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
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António Gedeão

02 de fevereiro de 2010 - terça-feira

CARTA, NUVENS, URSO e CORAÇÃO
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Mas onde já se ouviu falar
num amor à distância,
Num tele-amor ?!
Num amor de longe…
Eu sonho é um amor pertinho
Um amor juntinho...
E, depois,
Esse calor humano é uma coisa
Que todos - até os executivos - têm.
É algo que acaba se perdendo no ar,
No vento
No frio que agora faz…
Escuta!
O que eu quero,
O que eu amo,
O que eu desejo em ti
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É teu calor animal!…
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Mario Quintana

01 de fevereiro de 2010 - segunda-feira

CHICOTE, FOICE, CAMINHOS e MULHER
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Esse seu silêncio
soa como um grito,
abafado em panos.
Só faz denunciar os danos que causei.
Desculpe o mau-jeito,
mas comporto, em minha quota de defeitos,
não levar junto os enganos que eu amei.
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Flora Figueiredo

31 de janeiro de 2010 - domingo

CAIXÃO, CRUZ e URSO
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No falecimento
Lenço grande demais
Pro sentimento.
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Millôr Fernandes

30 de janeiro de 2010 - sábado

PÁSSAROS, CARTA, LUA e URSO
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Ela disse que me ama
Disse que me adora
Disse que me quer
Diz que quer morar comigo
Que sai da igreja
E aceita o candomblé
Diz que uma vez na cama
Esquece da fama
E de trabalhar
E prepara na bandeja
Um filé que seja
Pra eu não levantar
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Ela vem com essa
E eu nem a conheço pessoalmente
Só no chat
Só na net
Só na mente
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Eu já disse tantas vezes
Que só quero papo
Tenha piedade
Não estou de brincadeira
Tenho compromisso
Só quero amizade
Disparou na rede agora
Que já me namora
Parece lelé
Já marcou o casamento
Sem meu consentimento
Quer ser minha mulher
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Seu Jorge

29 de janeiro de 2010 - sexta-feira

CORAÇÃO, URSO, LUA e CAIXÃO
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O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao público recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.
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Quando amo, amo e deliro sem barulho:
E quando sofro, calo-me e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.
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Olavo Bilac

28 de janeiro de 2010 - quinta-feira

RATOS, CEGONHA, LIVRO e SOL
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Perder tudo - livrou-me
de sentir a perda de coisas menores.
Se nada maior que um Mundo
saindo do seu eixo
ou do que a extinção do Sol
for a novidade -
então nada é tão grande que me faça
erguer a cabeça de meu trabalho
por curiosidade.
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Emily Dickinson

27 de janeiro de 2010 - quarta-feira

SOL, CAMINHOS e LUA
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O dia e a noite são ligados pelo prazer
e pelas ondas do ar
A vida e a morte são ligadas pelas flores
e pelos túneis futuros
Deus e o demônio são ligados pelo homem
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Murilo Mendes

26 de janeiro de 2010 - terça-feira

FOICE e NAVIO
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Vezes sem conta
Tenho vontade que nada mude
Volta e meia vou ver
Mudar foi tudo que pude
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Paulo Leminski

25 de janeiro de 2010 - segunda-feira

COBRA, HOMEM e TORRE
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Me gusta encender
el cigarrillo dese hombre.
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Me gustaria encender la luz
para que yo
y todos vean
el hombre
y la luz que es ese hombre.
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Pero,
me gustaria mucho más
encender
ese hombre.
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Alice Ruiz

24 de janeiro de 2010 - domingo

RATOS, CAMINHOS e NAVIO
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Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote
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Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra
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Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
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Sophia de Mello Breyner

23 de janeiro de 2010 - sábado

LUA, CAMINHOS e CORAÇÃO
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Olhos fechados
Prá te encontrar
Não estou ao seu lado
Mas posso sonhar
Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá...
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Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição
E aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá...
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Paulo Sérgio Valle e Herbert Vianna

22 de janeiro de 2010 - sexta-feira

MONTANHA e SOL
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Pensem o que quiserem de ti; faz aquilo que te parece justo.
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Pitágoras

21 de janeiro de 2010 - quinta-feira

CAVALEIRO e LUA
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Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
durmo agora, recomeço ontem.
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Carlos Drummond de Andrade

20 de janeiro de 2010 - quarta-feira

CHICOTE, TORRE e ESTRELAS
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Como a noite descesse e eu me sentisse só,
só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam,
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora!
e vi logo que só as estrelas é que me entenderiam.
Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!
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Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!
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Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?
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Emílio Moura

19 de janeiro de 2010 - terça-feira

CAVALEIRO e ÂNCORA
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Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?
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Fernando Pessoa

18 de janeiro de 2010 - segunda-feira

LUA, CAMINHOS e LÍRIOS
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A vasta noite
não é agora outra coisa
se não fragrância.
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Jorge Luis Borges

17 de janeiro de 2010 - domingo

CORAÇÃO, CAIXÃO e JARDIM
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Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes.
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Lya Luft

16 de janeiro de 2010 - sábado

TORRE, SOL, LUA e CRIANÇA
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Quem me dera
Ao menos uma vez
Entender como um só Deus
Ao mesmo tempo é três...
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Renato Russo

15 de janeiro de 2010 - sexta-feira

CÃO, CAIXÃO e TORRE
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Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
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Sophia de Melo Breyner

14 de janeiro de 2010 - quinta-feira

CRIANÇA, CORAÇÃO e SOL
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Não és apenas o meu amor:
És a infância madura, o silêncio
Cheio de música, a primeira palpitação,
O sinal da pequena esperança sorrindo
Depois de um longo tempo impenetrável.
E tudo que é simples e tranqüilo:
És o bom fogo que Deus me deu.
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Augusto Frederico Schmidt

13 de janeiro de 2010 - quarta-feira

CAMINHOS e TORRE
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Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

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Fernando Pessoa

12 de janeiro de 2010 - terça-feira

LUA e LÍRIOS
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Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.
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Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.
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Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer
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Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.
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É ter o gosto da vida,
amar o festivo, e o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.
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Pode também ser tristeza:
tranquilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.
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Sou: estou e canto.
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Thiago de Mello

11 de janeiro de 2010 - segunda-feira

LÍRIOS, TORRE e LUA
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Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então
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Sou o que fui.
E sou o que serei.
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Augusto Frederico Schmidt

10 de janeiro de 2010 - domingo

CEGONHA, JARDIM e TORRE
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Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até as fontes
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Irei até as fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor
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Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um vôo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
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Sophia de Mello Breyner